UE adota fundo de defesa para cortar dependência dos EUA

Empresas americanas e britânicas não poderão participar do processo

Bandeira da União Europeia
Bandeira da União Europeia
Foto: Reprodução

A União Europeia (UE) apresenta nesta quarta-feira o primeiro Fundo Europeu de Defesa (FED) para desenvolver as capacidades militares de seus membros, mas suas condições descartarão na prática a participação de empresas de países fora do bloco, como os Estados Unidos e, inclusive, o Reino Unido, em processo de saída.

A iniciativa dotada de € 13 bilhões busca promover a autonomia estratégia da UE, embora possa tensionar ainda mais as relações com os EUA de Donald Trump a um mês de uma importante cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Bruxelas, e num moemnto em que os dois lados do Atlântico vivem uma crise comercial e diplomática.

As empresas que optarem por estes fundos deverão "ter a sua sede e suas infraestruturas na União Europeia e, sobretudo, uma entidade instalada fora da UE não poderá controlar a tomada de decisões", explicou à AFP um responsável europeu que pediu anonimato.

A filial europeia de um grupo americano, canadense, russo, ou chinês não poderá aspirar ao financiamento do Fundo Europeu de Defesa. Como também um grupo britânico, detalhou à AFP outra fonte europeia:

— O programa começará a ser aplicado a partir de 1º de janeiro de 2021 e, portanto, para uma União Europeia de 27 membros — explicou.

O Reino Unido abandonará o bloco no fim de março de 2019.

A medida não deve agradar a Washington — que vinha pressionando por um aumento dos países europeus com defesa —, que já advertiu seus aliados contra qualquer discriminação que afete suas empresas.

Em Bruxelas, as fontes consultadas defendem que os critérios não são discriminatórios, principalmente quando as empresas interessadas no financiamento nos Estados Unidos devem ter sede neste país, ou empregar apenas equipes americanas.

— Os critérios de elegibilidade europeus são similares. É normal que o dinheiro europeu vá para as empresas europeias — reiterou a primeira fonte.

EMANCIPAÇÃO

O Fundo Europeu de Defesa é "um instrumento de emancipação" para uma UE totalmente dependente das empresas americanas para a fabricação de drones militares e a proteção de seus satélites, segundo os responsáveis questionados.

"O Fundo contribuirá para a autonomia estratégica da Europa em matéria de proteção e defesa de seus cidadãos", informou a Comissão Europeia.

Com € 13 bilhões de euros para o período 2021-2027, o FED destinará € 4,1 bilhões para a pesquisa e € 8,9 bilhões para o desenvolvimento de capacidades militares.

— O Fundo irá intervir na fase mais delicada e mais cara da pesquisa: o desenvolvimento do protótipo — detalhou um responsável europeu, afirmando que poderia financiar até "20% do custo".

Atualmente, "80% da pesquisa e do desenvolvimento são feitos em nível nacional na UE" e "o resultado são 172 sistemas de armamento" que não são "interoperáveis", acrescentou a fonte.

Com este fundo, França, Alemanha, Itália e Espanha poderiam financiar seu projeto conjunto de um drone militar MALE, assegurou à AFP a ministra francesa dos Exércitos, Florence Parly.

A eleição de Trump nos Estados Unidos e suas críticas à defesa coletiva na Otan, à qual pertencem 22 países da UE, supôs um impulso para que os europeus progridam em seu antigo sonho de uma Europa de Defesa.

Quando os europeus estão imersos em tentar alcançar os 2% do PIB de gasto militar nacional para 2024, uma das exigências de Washington na Otan, os Estados Unidos se preocupam agora com os desejos de autonomia de seus aliados e urgem que comprem suas empresas.

— A competição entre os industriais do setor da Defesa não é nova, mas as pressões dos Estados Unidos para comprar equipamento americano se tornaram problemáticas — reconheceu recentemente um responsável de alto escalão da Otan em Bruxelas.

Inclusive, o secretário-geral da Aliança Atlântica, Jens Stoltenberg, fez eco do debate de 7 de junho.

— Os países da Otan que não são membros da UE não podem receber financiamento da UE — disse após uma reunião de ministros da Defesa em Bruxelas.