Psicólogo alerta: "O uso privativo do celular não é traição"

O psicólogo Thalles Contão, colunista da Revista.Ag, responde a leitora sobre a relação entre internet, celulares, e traição

Psicólogo alerta: "uso privativo do celular não é traição"
Psicólogo alerta: "uso privativo do celular não é traição"
Foto: Unsplash

 

 

PERGUNTA: MARCELA 

"Não consigo confiar no meu marido. Tenho quase certeza de que ele me trai pela maneira privativa que ele lida com o celular e também pelo comportamento agressivo dele quando desabafo sobre esta desconfiança. Na profissão dele, fica sozinho com diversas mulheres e é um homem que se preocupa muito com aparência... Qual é a principal característica de um homem que trai?"

Cara leitora, começarei um pouco diferente das outras colunas e, já de primeira, responderei à sua questão: um homem que trai tem como principal e única característica estar comprovadamente com outra mulher. Não há segredos sobre traição. É como qualquer outro processo, em qualquer outro relacionamento, que envolva quebra de confiança. Eu descubro o fato com uma prova real e o atesto. Todavia, se não tenho fatos, se apenas tenho inferências, interpretações, incorro na possibilidade, principalmente em relações marcadas por afetividades imaturas ou patológicas, de cometer uma injustiça ou uma tragédia.

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Agora retomo a minha forma costumeira de escrever a coluna e te proponho uma pergunta: que prova real você tem da traição do seu marido? Porque, com toda a sinceridade que me é característica, não apresentou nenhuma? E, sinceramente, aponta-se o risco de que esteja conduzindo uma relação ao fracasso por uma tentação paranoica, que fala mais de você do que do seu cônjuge. Tudo o que apresenta como prova, facilmente, pode ser decomposto para traços da sua própria insegurança. Se sente insegura, tem dificuldade em confiar nas pessoas? Estas também são perguntas que te cabem como explicação da primeira pergunta proposta.

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Atualmente, precisamos aprender a nos desapegar de certas fantasias infantis de segurança, fundadas na nossa falta de preparo para frustração. Somos, ou temos sido, no nosso processo de desenvolvimento infantil, tão superprotegidos que construímos uma realidade paralela na qual não há decepções e somos favorecidos de todas as formas. Precisamos, a esta altura de como caminha a vida moral da nossa sociedade, entender que as pessoas traem, e que a nossa cultura atual praticamente as conduz a isso. Quando as pessoas desejam trair, não serão nossas fantasias de poder, baseadas numa psicologia infantil, que nos impedirão de sermos os próximos a experimentar uma situação que sempre esteve presente na história dos relacionamentos humanos em toda a história da nossa espécie.

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Querida leitora, seu marido não precisaria, caso desejasse te trair, de ocasiões facilitadoras como ficar sozinho com mulher no trabalho em vez de se relacionar com elas profissionalmente. Até te diria que, se ele for o mínimo inteligente, o faria como os que traem, sem associação com obviedades. Até porque, minha cara, imagino que ele esteja muito acostumado com essa tensão no meio de vocês, o que diminui ainda mais as chances de que você esteja certa. E prefiro nem comentar a situação da preocupação com a aparência, que está associada ao exercício profissional dele, omitido aqui a seu pedido. Mas não fica difícil deduzir que alguém que trabalha com mulheres precise ser mais cuidadoso com a aparência.

Para não me alongar demais, te sugiro a pensar que talvez o problema do seu casamento, o problema real, seja a falta de confiança e, sim, esse é um problema pelo qual se vale a pena terminar uma relação, especialmente o casamento. Um vínculo familiar fundador precisa se estruturar numa base

sólida de confiança. É uma questão até mesmo prática de conforto psíquico e nem tanto moral, quanto alguns talvez defenderiam. Como posso formar uma família com alguém em quem não confio? Seria um verdadeiro inferno! E achar que o marido te trai porque ele se ofende de ser acusado de traição sem provas reais, baseado em uso privativo de celular é o traço patológico mais pujante que manifestou em todo o seu relato e, baseado nisso, precisa procurar ajuda urgente. E sei, estimada leitora, que discordará disso tudo, mas talvez quem esteja te traindo seja você mesma, enquanto seu casamento rui pela sua insegurança.